domingo, outubro 15, 2006

Furtos alimentam o comércio informal

Metade dos roubos no varejo é para revenda, diz pesquisa da FGV-SP

O rapaz entra no supermercado e, poucos minutos depois, esconde uma garrafa de uísque na cintura. Passa por um corredor movimentado, retira lâminas de barbear da gôndola, finge que lê a embalagem e sai com o produto na mão. Quando se distancia dos outros clientes, coloca o objeto no bolso da jaqueta larga. Num piscar de olhos. Dali, segue para a seção de escovas de dente e repete o mesmo ritual. O produto termina na manga do casaco. Antes de sair do supermercado, ainda pega um creme para o corpo e um fio dental. A ação dura menos de dez minutos. “Para quem já trabalhou na área não tem mistério. Eu entro, não faço cena e saio rápido”, diz o infrator. “Eu sempre vendo uma parte e fico com alguns produtos para mim.”
A cena e o depoimento foram filmados por uma equipe de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Pela primeira vez um estudo sobre o tema procurou entender a fundo o comportamento do ladrão no varejo. Os pesquisadores entrevistaram 30 “profissionais” e gravaram 5 roubos, 4 deles simulados. O resultado é surpreendente: metade dos pequenos furtos no varejo é feita para revenda.
Trata-se de uma indústria que abastece, a partir de um trabalho de formiguinhas, a economia informal com pilhas, lâminas de barbear, cremes para o corpo e cabelo, protetores solares e bebidas, entre outros. “São produtos caros, que rendem uma boa margem do lucro aos ladrões. Eles sempre vendem por metade do preço de gôndola”, afirma José Bento Amaral Júnior, coordenador da pesquisa da FGV ao lado dos professores Juracy Parente e Ciro Leichsenring. “O resultado do roubo no Brasil é escancarado, está na cara da polícia, nos calçadões da Avenida Paulista. Isso não acontece nos outros países.”
O trabalho foi feito por encomenda de uma multinacional de bens de consumo e pelo instituto inglês Perpetuity Group. A pesquisa foi realizada em países onde o índice de informalidade é alto. “A indústria está preocupada com o problema nesses lugares. O prejuízo não é só para o varejo, mas também para as marcas, que são vendidas em bancas de camelôs a um preço bem menor”, diz Amaral.
Segundo os varejistas que participaram do estudo, as perdas variam entre 0,3% e 5% da receita. A média é de 1,38%, o equivalente à rentabilidade do setor. Desse total, 80% representam pequenos furtos, de acordo com Amaral.
Como se trata de um roubo profissional, os gatunos estão quase sempre à frente da parafernália de segurança dos supermercados. Eles têm métodos sofisticados de roubo e sabem como driblar as câmeras, os seguranças uniformizados e à paisana, as caixas acrílicas que protegem os produtos e os alarmes nas portas das lojas. “Enquanto a gente pensa no assunto 12 horas por dia, eles pensam 24 horas por dia. Eles vivem em função disso. O supermercado não”, diz Paulo Polesi, diretor de prevenção de perdas do Wal-Mart e presidente do núcleo de Etiquetagem de Origem, criado para coibir roubos no varejo .

SOB ENCOMENDA

Em geral, os ladrões que roubam com o intuito de revender agem de forma diferente dos gatunos por necessidade. Eles planejam o roubo antes e não levam comida, mas produtos caros, que, além de lucrativos, são fáceis de passar adiante. A freqüência de roubo é alta, outro sinal de profissionalização. Quase metade deles faz um ou dois furtos por semana e 17% vão de três a quatro vezes por semana.
Segundo a pesquisa, poucos são os infratores que têm contato com os receptadores. Menos ainda são os que vendem diretamente para eles. “Eles não sabem ou não quiseram definir exatamente que tipo de pessoa são”, diz Amaral.
Boa parte dos entrevistados na pesquisa entra em ação à noite. A maioria prefere lojas grandes. A ação, muitas vezes, é planejada. Os larápios entram no supermercado com a encomenda na cabeça. Alguns levam mais de quatro objetos de uma vez só. Quanto mais produtos, mais profissional é o furto.
Eles tentam agir naturalmente, como se fossem consumidores comuns. Para não dar bandeira, fazem questão de andar bem vestidos. “Eu passo no caixa, pago algumas coisas baratas e saio calmamente”, diz uma jovem infratora. “Tem sempre uma garota do lado de fora me esperando. Às vezes, descarrego a mercadoria e volto para a loja para pegar mais coisas. É uma máfia. Nós tiramos até R$ 300 por dia.”
Essa jovem usa a técnica da mochila cheia de papel, que não desperta suspeita por estar sempre com volume. Os gatunos usam roupas largas e escondem os produtos nos bolsos da calça, na cintura, na jaqueta, na manga do casaco e até colado nas axilas.